ta sempre a par das novidades

quarta-feira, 16 de julho de 2014

/viagem ao silêncio das coisas

Apenas ouço o silêncio das coisas.
Um silêncio ruidoso como só as coisas sabem ter.
As pessoas não são assim ruidosas no seu silêncio; às vezes são distantes, ausentes; outras deveras presentes e barulhentas no seu silêncio mudo, mas ruidosas nunca.
Nunca encontrei calma no silêncio, ele esmaga-me por dentro. É um vazio pesado que nos esmaga contra a fria pedra da verdade inútil da realidade.

Façam barulho, exijo que gritem, que falem alto, que partam pratos e deixem cair talheres, que existam em não silêncio para eu me fingir presente. Para me fingir audível, para fingir ter ruído como as coisas...

As coisas têm ruído pois têm a sua função.
E eu quero ter o ruído do silêncio das coisas.

/a palavra das setre letrinhas apenas

"Tenho saudades...
Saudades do sol e do mar.
Saudades do sal e do calor.
Saudades dos momentos em que queimámos a pele juntos e nos refrescámos com o sabor da menta líquida, que engolimos do mesmo copo.
Saudades da partilha... tenho saudades de partilhar...
Do meu ser indesejado e bebermos o nosso com sede de um futuro plural.
Tenho saudades de dourares os meus olhos sempre mais e mais, talvez com a côr que ganhavas na pele com o passar dos dias, talvez somente com o brilho dos teu olhar enquanto sorrias para mim. Já não sei, talvez nunca tenha sabido... tenho saudades de não querer saber o porquê das coisas.
De aceitar sem interrogações e sorrir.
Saudades dos beijos de sal, do teu cheiro misturado com o da maresia, do teu suor fundido com as gotas de água que te escorriam do cabelo. Dos passeios à beira mar tendo apenas a lua como testemunha das promessas eternas que vieram da boca para fora mas que naquelas noites faziam tanto sentido.
Saudades do borbulhar rosado vindo de uma garrafa partilhada e do inebriado riso que juntos criávamos.
Tenho saudades do Verão, do meu, do nosso Verão.
Dos para sempres e dos agoras.
Saudade das certezas de mãos dadas na areia com os pés nas ondas. saudades de mim ali e de nós e do agora do passado a alta temperatura no Verão de ontem já quase esquecido.
É curioso... de ti... não tenho saudades."

segunda-feira, 23 de junho de 2014

/para sempre...


-sempre foi o teu rosto que vi quando me observei acompanhado num futuro longínquo de cabelos brancos e rugas, mas de mão dada, de dedos entrelaçados. Eram os teus olhos o teu sorriso. Sempre foram. Sempre foste tu... Para que duvidar?
Não vamos questionar vamos apenas caminhar juntos. Vamos amar. Vamos sorrir e chorar juntos. Vamos aceitar respeitar e perdoar juntos. Vamos crescer juntos de mãos dadas, até chegarmos aquele jardim, aquele banco da minha memória futura.
Serei para sempre teu...

/o monstro


Olho em frente e já não sinto o cheiro.
Caminho recto sem ver o destino do mapa traçado a giz como tinta permanente.
Busco o pulsar do mecanismo guardado no peito, tento alcançar a estrada de tijolos encarnados que a máquina bombeia em direção ao meu corpo e não a encontro. Perco-me no escuro deste vazio silêncio escutando o futuro de um passado não presente.

Fujo de mim para me encontrar...
Ba
to à porta e não estou. Ligo sem parar pro número que guardo com o meu nome e ninguém responde.

Já cá não estou...

Fui pelo caminho que afinal não existe. O caminho que pertence a uma memória de um amanhã sonhada ontem, em tempos, chamada para sempre.

Mas olho em frente e caminho recto mesmo sem me encontrar em mim. Sem o cheiro da felicidade presente, sem o local chamado amor à minha frente...
Mas vou... Sem olhar, sem ver, sem sequer acreditar...

Vou...

O monstro vai crescendo dentro de mim...

/a chama de um copo de mim


Chama Fogo Arde

Fogo Chama Queima

A vontade incendeia-nos por dentro esperando que os olhos gélidos ocultem o calor que nos invade as carnes com um vento quente de Verão vindo de Sul.

O sangue ferve cada vez mais... cada vez mais... mais... mais... Mais....

- Mais gelo... O whisky precisa de mais gelo...
...

Tento que ele não se aperceba, tento que ninguém se aperceba que já não sou eu quem detém o controlo novamente.
Sorrio... sorrio e finjo rir-me das conversas banais que caem no balcão...

E a chama no pavio ganha cada vez mais força... a luz é cada vez maior e o seu calor incendeia-me cada vez mais.

-Do you light my candle?

Olho para ti, sentado na mesa de bar, sorris-me e eu sei que sabes que és tu quem mexe os cordões da chama enfantochada desta paixão...
Deixei cair a máscara e fiquei vulnerável.
Ardo em frente a todos e já não tenho vergonha de o fazer...

"EI, TU QUE PASSAS A NOITE NUM BAR
QUE QUERES NUM COPO O MEU CORPO ENCONTRAR
EI, OLHA PARA MIM TU NÃO ME CONHECES
SÓ QUERES O MEU CORPO, PAGAS E ESQUECES."

Apaga esta vela antes que a cera queime... sem ilusões de uma verdadeira chama partilhada... sem fantasias de um fogo contínuo. sem mágua... por favor...
Apaga-a!

O fogo é só meu, eu sei, e o calor dos teus olhos eu sei que não é amor, apenas vontade, desejo, líbido ardente... mas amor... não...

-Did you really light my candle?

Fecho os olhos, apago o cigarro acendido com a chama da falsa paixão e dirijo-me para o palco...

A vela queimou até ao fim, apagou-se...
As Luzes acendem...

SHOW MUST GO ON

/vontades de cristal

Segui em frente guiado pelas estrelas. A lua não enchia a rua de azul mas sorria-me em modo crescente.
Segui em frente com um pensamento dormente... uma memória táctil de um futuro incerto dos lábios carente.
Perdi-me porém na solidão de uma multidão ao encontrar a praça replete das gentes... multidões em harmonia, companhias, palavras, sorrisos presentes... e em mim... o silêncio...
Olhei para o ...
alto e a lua já lá não estava e as estrelas pareciam ter perdido o brilho encaminhante de outrora.
Procurei um degrau, sentei-me e meditei...
Serei eu o fracasso? Um ser impotente... sem forma de alcançar os anseios e desejos?
Não... sou um mero caminhante, sim, um vagueante nocturno de falso sorriso... escondi a interrogação presente e encolhi o sal líquido que prometia cair-me do brilho dos olhos.
Ergui o olhar e depois o queixo, elevei-me em direção ao incerto e fui...

Procurei o verde líquido que tantas vezes me acalmara... ingeri-o de um trago. Nova rodada e um ligeiro tremor... senti-me bem, confiante, potente... ingeri curtos pedaços de reconforto seguidos de lima, antecedidos do sabor das lágrimas salgadas... inebriado caminhei por uma multidão de suor e cheiros... perdi-me nos seus movimentos cativantes, vi nos seus olhares convites... vi o que nunca vejo...
Esta noite voltei a sentir o poder nas minhas mãos, na minha mente, nos meus lábios.
Virei feiticeiro.
Encantei, fiz magia, iludi, provei o sabor de outros lábios, a respiração de outro ser, o cheiro de alguém mas não concluí as vontades, não terminei os actos, não atingi as finalidades... na verdade, nunca alcanço o verdadeiro destino...

E então fugi... sem saber quando terei oportunidade de voltar a experimentar esta magia novamente...

Fugi e para trás deixei o meu encanto de cristal, perdido nas escadas.
E no bater da hora zero tornei-me novamente eu e o cristal estalou pisado pela indiferença de um qualquer príncipe que nem sequer conheci...

quarta-feira, 16 de abril de 2014

/eu não


"Eu
Não me vejo nessas falsas realidades
Não me leio nas palavras sem verdades
Nem me encontro em frente ao dedo acusador
Do temor

Eu
Sou um pássaro que procura a liberdade
Por entre os medos desumanos da sociedade
Sou um monstro aos olhos negros sem amor
Do terror

Sou dor
Horror

Sou desamor

Oh Desamor..."

quarta-feira, 2 de abril de 2014

/memórias esquecidas

Rasga a página que escrevi. 
Apaga tudo o que disse no passado. 
Solta as folhas ao vento e queima as lembranças que prometi e nunca alcancei. 
Deixa o passado escondido no breu da caixa de sapatos das memórias, dos sapatos que já não nos servem, dos sapatos que perdemos à meia noite fugida numa escadaria do tempo perdido e agora já não nos servem. 
Olha para o futuro e dá um passo em frente. O segundo virá naturalmente. 
E quando deres por ti estarás num caminho só teu, longe de mim, mas seguindo as setas em direção ao destino certo... O mais certo de todos...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

/guitarra toca baixinho

Era uma vez uma guitarra que tocava sempre baixinho.


Tocava baixinho com medo de acordar a saudade. 
Tocava frases melódicas nunca antes ouvidas para não despertar as memórias; e tocava-as baixinho… 


Baixinho.. 

Não fosse alguém recordar-se de uma nota e trazer de novo a tristeza ao bairro desta cidade.


Esta guitarra já não chorava, as cordas já não tinham lágrimas, secaram; não fossem essas lágrimas desencantar o sono da voz da fadista.

                                                            (se a fadista se lembrasse do que era o
 fado
                                   as memórias, a saudade e a tristeza voltariam aquele bairro.)

Então a guitarra fingia-se alegre e tocava cantigas novas. 

Sem memórias, sem saudade, sem história… 



                                 E tocava baixinho, para não acordar as lágrimas da cidade.

/a dor sem o Fado

Desde o dia em que o Fado se calou.
Do momento em que a saudade se escondeu
Quando a guitarra suas lágrimas secou
Todos esqueceram o que era o Fado menos Eu.

Os poetas já não escrevem as verdades
Sobre o passado, a mágoa e o amor.
Criam versos onde reina a felicidade
Com receio de lembrar o que era a dor.

E agora aquelas cordas já não tocam
Os poemas da memória e da saudade.
O silêncio já bateu a cada porta
De silêncio enchem-se as ruas da cidade.

Vivem presos a uma falsa realidade
Por não chorarem as dores do passado.
O Fado chora e grita - é liberdade
E a cura desta dor é só o Fado .